‘A Justiça não é pra gente’, diz tia de Thiago Flausino após PMs serem absolvidos por morte do adolescente

  • 12/02/2026
(Foto: Reprodução)
Tia de Thiago Flausino desabafa após PMs serem absolvidos em júri Após dois dias de julgamento no Tribunal do Júri, a família de Thiago Menezes Flausino deixou o fórum com uma sensação de injustiça. O adolescente de 13 anos foi morto durante uma operação policial na Cidade de Deus, em 2023. Os dois policiais militares que respondiam pelo crime foram absolvidos na noite desta quarta-feira (11). Ao deixar o Tribunal, Ana Cláudia Araújo, tia de Thiago, afirmou que a família saiu com a sensação de injustiça. “A gente foi vitimizado e mais uma vez saímos com a certeza de que a justiça não é pra gente. Ela não foi feita pra gente. A gente vive com alvo nas costas. Thiago era só um menino de 13 anos, cheio de sonhos. O que a gente viu aqui não foi o julgamento dos policiais. A gente viu aqui o julgamento do Thiago”, disse. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça O julgamento começou na terça-feira (10) e se estendeu por dois dias, sendo encerrado na noite de quarta (11), quando os jurados anunciaram a decisão. Os policiais Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria também foram absolvidos da acusação de tentativa de homicídio contra Marcos Vinícius de Souza Queiroz, que dirigia a moto onde estava o adolescente. A sentença foi lida pelo juiz Renan de Freitas Ongaratto, do 2º Tribunal do Júri, após a decisão do Conselho de Sentença. A Anistia Internacional Brasil manifestou indignação pela absolvição e disse que o foco do julgamento foi desviado (leia a íntegra abaixo). Antes do início do julgamento, familiares e moradores da Cidade de Deus fizeram um protesto pedindo justiça por Thiago. Para a família do jovem, no entanto, a decisão representa mais um capítulo de dor. “Thiago era só um menino”, repetiu a tia, ao final do julgamento. Da esquerda para a direita: a tia de Thiago, Ana Paula, a mãe, Priscilla Menezes, e pai o, Diego Flausino Reprodução/TV Globo Thiago foi morto em agosto de 2023, durante uma operação policial na comunidade. A investigação apontou que ele foi atingido por três tiros: um na parte traseira da perna, um nas costas e outro que perfurou as duas canelas. Ao longo da investigação, os dois policiais admitiram que atiraram contra o jovem e seu amigo. Eles disseram que Thiago portava uma arma e teria disparado contra eles. O laudo de exame de local do homicídio, no entanto, indicou não haver qualquer vestígio que sugira que Thiago disparou contra os agentes. Os dois policiais também respondem por fraude processual. Segundo a investigação, os PMs envolvidos manipularam a cena do crime e plantaram uma pistola 9 milímetros próximo de Thiago para sustentar a versão de confronto. O julgamento da fraude processual será realizado na auditoria da Justiça Militar. Os policiais Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria Reprodução/TV Globo Anistia Internacional cita 'indignação' A Anistia Internacional Brasil emitiu uma nota manifestando indignação pela absolvição dos policiais. Leia a íntegra: "A Anistia Internacional Brasil manifesta sua indignação diante da absolvição dos policiais militares acusados pelo assassinato de Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, morto em 7 de agosto de 2023, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro (RJ). Dos quatro policiais que participaram da operação, apenas dois foram levados a júri popular. A Justiça entendeu que não havia elementos suficientes para que os outros dois fossem julgados pelo Tribunal do Júri. No julgamento realizado nos dias 10 e 11 de fevereiro de 2026, os dois policiais acusados foram absolvidos. Além da dor da perda e da absolvição, chamou atenção durante o júri o deslocamento do foco do julgamento. Em vez de se concentrar nas circunstâncias da morte e na conduta dos acusados, houve tentativas reiteradas de questionar a vida e a memória de Thiago, associando sua imagem à criminalidade como forma de justificar sua execução. Essa inversão, que transforma a vítima em alvo de julgamento, desvia o debate do que está em análise e fere o direito à memória, à verdade e à justiça. Quando o foco do júri se desloca para a vida da vítima, e não para a conduta dos acusados, há uma inversão grave. O réu é quem está sendo julgado e não o menino que foi morto. Questionar a trajetória de Thiago não contribui para a justiça; ao contrário, perpetua a violência e atinge seu direito à memória e à dignidade. A dor de ver a trajetória de seus filhos atacada é uma constante para mulheres negras moradoras de territórios vulnerabilizados pela violência policial e mães de vítimas da violência do Estado. A Anistia Internacional reforça seu compromisso com os movimentos de mães de todo o país, manifesta solidariedade à família de Thiago e seguirá ao lado dessas mulheres na busca por justiça, memória e reparação. A história de Thiago é o retrato de uma realidade que atinge de forma desproporcional crianças e jovens negros no Brasil, em um contexto de política de segurança pública marcada por práticas violentas e racistas. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2015 e agosto de 2025, ao menos 56.396 pessoas foram mortas em ocorrências classificadas como homicídios por intervenção policial. Dessas vítimas, 82,7% eram negras e 71,7% eram jovens. Todas essas mortes poderiam ser evitadas com uma política de segurança pública que colocasse a vida no centro de sua atuação. É urgente interromper a lógica de militarização e a narrativa de “guerra às drogas”, além de garantir a responsabilização criminal, administrativa e cível de todos os agentes do Estado envolvidos em operações letais. A absolvição dos policiais militares representa uma derrota na luta por justiça, memória e reparação. Manifestamos nossa indignação e solidariedade com a família de Thiago. Histórias como a dele não deveriam existir e nossa luta é para que casos como este não mais se repitam." Thiago Menezes Flausino tinha 13 anos quando foi morto Reprodução/TV Globo

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/12/a-justica-nao-e-pra-gente-diz-tia-de-thiago-flausino-apos-pms-serem-absolvidos-por-morte-do-adolescente.ghtml


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