Enfraquecer Hezbollah e criar 'zona-tampão': o que Israel busca na guerra no Líbano

  • 10/04/2026
(Foto: Reprodução)
Homem próximo a escombros de prédio após ataque israelense no bairro de Ain Al Mraiseh, em Beirute, no Líbano, em 8 de abril de 2026. REUTERS/Louisa Gouliamaki Nas últimas semanas, Israel tem promovido intensos ataques aéreos contra posições do Hezbollah no Líbano, avançando por terra sobre parte do território do país vizinho. Na capital, Beirute, bombardeios israelenses atingiram áreas residenciais e deixaram mais de 200 mortos. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp A ofensiva israelense, que ocorre paralelamente à guerra no Irã, foi deflagrada após o grupo terrorista xiita disparar mísseis contra Israel em apoio ao Irã, no início de março. A escalada marcou o fim definitivo de um frágil cessar-fogo que estava em vigor desde novembro de 2024. Da perspectiva da liderança israelense, Tel Aviv não está apenas reagindo aos ataques, e sim perseguindo vários objetivos estratégicos — desde enfraquecer o Hezbollah e estabilizar a fronteira norte até conter a influência iraniana na região. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Mas, conforme Israel continua a expandir suas operações e a ordenar a explusão de centenas de milhares de pessoas, cresce o temor de uma nova ocupação de longo prazo do sul do Líbano. Hezbollah é considerado ameaça militar Israel considera o Hezbollah uma das maiores ameaças militares ao país. Fontes de segurança afirmam que o grupo é capaz de alcançar praticamente todo o território israelense com suas armas — o grupo xiita é classificado como organização terrorista por diversos países do Ocidente, possui um amplo arsenal de foguetes e uma estrutura militar relativamente bem organizada. O chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, declarou, segundo o jornal "Haaretz", que Israel não encerrará a guerra enquanto a ameaça representada pelo Hezbollah não for eliminada. O objetivo é enfraquecer ou destruir, a longo prazo, as capacidades militares do grupo no Líbano. Israel e Líbano marcam negociações em meio a bombardeios O cientista político Peter Lintl, da Fundação Ciência e Política (SWP) em Berlim, vê nisso uma mudança na lógica militar israelense. "Essa é, de modo geral, a nova orientação estratégico-militar de Israel, que se desenvolveu após o 7 de outubro", afirma. O objetivo deixou de ser apenas conter os adversários e passou a ser "combatê-los de forma que deixem de representar qualquer perigo". Mas Lintl considera improvável a eliminação total da organização, que é também um partido político com presença no Parlamento. "O Hezbollah está amplamente enraizado na sociedade e é parte da estrutura social libanesa." Por isso, é mais provável que Israel tente "estabelecer uma zona de segurança no sul e ocupar ali posições" do grupo. Retorno de civis ao norte de Israel Tropas do Exército israelense operando no Líbano em foto de 9 de abril de 2026. Divulgação/Exército de Israel Outro objetivo de Israel é estabilizar permanentemente a situação de segurança no norte do país. Desde os ataques terroristas do Hamas contra Israel em outubro de 2023 e os confrontos subsequentes com o Hezbollah, inúmeras localidades próximas à fronteira libanesa foram evacuadas, e dezenas de milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. Segundo o jornal "Times of Israel", o governo israelense busca "o retorno seguro dos moradores do norte às suas casas". Mas Lintl observa que se causar o maior dano possível ao Hezbollah pode dar tempo a Israel, não resolve de forma duradoura o problema político subjacente. "Não se pode bombardear uma ideologia política até fazê-la desaparecer", ressalta, apontando para a falta de uma proposta política para o Líbano. O que é uma 'zona-tampão', como a que Israel diz que quer expandir no Líbano Enfraquecimento da rede de aliados iranianos Homens fazem gestos enquanto seguram bandeiras do Hezbollah, na entrada dos subúrbios do sul de Beirute Thaier Al-Sudani/Reuters Israel também considera o Hezbollah parte de uma aliança regional maior sob a liderança do Irã. Além do grupo terrorista no Líbano, esse bloco inclui grupos pró-Irã no Iraque e na Síria, bem como os houthis no Iêmen. Segundo o jornal "Jerusalem Post", o chefe do Estado-Maior israelense, Eyal Zamir, afirmou que Israel pretende eliminar a ameaça representada pelo "eixo xiita" liderado pelo Irã. Analistas israelenses argumentam que Teerã exerce sua influência na região por meio desses aliados e frequentemente trava seus conflitos com Israel de forma indireta, através desses grupos. Para Lintl, Israel aproveitou a oportunidade, após os ataques do Hezbollah, para agir militarmente contra o grupo. "Todo Estado tem o interesse legítimo de proteger seus habitantes", pondera. Ao mesmo tempo, ele destaca que a proteção da população israelense frequentemente implica impactos massivos no Líbano: "A tentativa de criar uma zona de segurança significa, ao mesmo tempo, que dezenas de milhares de pessoas no sul do Líbano precisam ser evacuadas." Ocupação do sul do Líbano? Tanque e blindados israelenses posicionados do lado israelense da fronteira entre Israel e o Líbano em meio a escalada bélica contra o grupo rebelde Hezbollah em 10 de março de 2026. REUTERS/Amir Cohen No final de março, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, anunciou planos para a criação de uma "zona-tampão defensiva" que vai desde a fronteira até o rio Litani, a 30 quilômetros dali, com a demolição em larga escala de casas e pontes na região, sinalizando uma possível ocupação de longo prazo de parte do território libanês. "Ao final da operação, as Forças Armadas de Israel se estabelecerão em uma zona de segurança dentro do Líbano, em uma linha defensiva contra mísseis antitanque, e manterão o controle de segurança sobre toda a área até o rio Litani", disse Katz no fim de março. Katz disse que a ocupação vai durar até depois das operações contra o Hezbollah. O ministro não deu um prazo específico, mas disse que, no período, todas as casas de vilarejo na faixa do sul do Líbano perto da fronteira com Israel serão demolidas, seguindo um modelo adotado por Israel na Faixa de Gaza. Pelos planos, os cerca de 600 mil civis libaneses que viviam ali não poderão retornar para suas casas até "que a segurança dos residentes de norte de Israel esteja garantida". Segundo Katz, essas centenas de milhares de libaneses deslocados serão "completamente impedidos" de retornar no período. A remoção de civis do sul tem atingido especialmente xiitas, grupo étnico muçulmano que compõe a base de apoio do Hezbollah, informou o jornal norte-americano "The New York Times". Na prática, a zona-tampão significa a ocupação de uma área equivalente a quase 10% do território libanês. O Hezbollah avisou que resistirá aos planos. Israel acusa o governo libanês de não fazer "nada" para desarmar o grupo, embora uma confrontação direta pudesse levar o país à guerra civil. Não seria a primeira vez que Israel abre a porta para uma ocupação de longo prazo do sul do Líbano. Isso já aconteceu de 1982 a 2000, com o nome de "zona de segurança". Na época, a ocupação foi encerrada pelo novo governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, que havia feito da retirada uma promessa de campanha, em meio à crescente rejeição da opinião pública israelense à manutenção de tropas na região.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/04/10/o-que-israel-busca-guerra-hezbollah-libano.ghtml


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