Regime dos aiatolás do Irã segue de pé, mas próximos dias determinarão sua sobrevivência: entenda a sucessão
02/03/2026
(Foto: Reprodução) Imagem de Ali Khamenei, que era líder supremo do Irã e foi morto pelos Estados Unidos e Israel.
EPA/Shutterstock via BBC
O assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, na onda inicial de ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel, pôs a república islâmica em seu momento mais precário desde 1979.
A operação teve como alvo a alta cúpula militar e política, no que Washington descreveu como um esforço decisivo para paralisar a estrutura de comando do Irã.
Na noite de sábado (28/2), notícias sobre a morte de Khamenei circulavam amplamente, desencadeando cenas que poucos teriam imaginado ser possíveis alguns dias antes.
Vídeos mostraram focos de comemoração em importantes cidades iranianas. Cenas semelhantes se desenrolaram entre grande parte da diáspora iraniana no exterior. Para muitos, a eliminação do líder supremo pareceu representar uma ruptura histórica, uma abertura que anos de resistência civil não conseguiram alcançar por si só.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Tanto o presidente dos EUA quanto o primeiro-ministro de Israel usaram linguagem direta em suas declarações públicas após os ataques. Donald Trump instou os iranianos a aproveitarem a oportunidade para "assumirem o controle de seu governo". O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ecoou o tema, argumentando que a mudança de regime é desejável e alcançável.
Embora a fase militar da operação Fúria Épica, como os EUA a denominaram, tenha parecido bem coordenada e em grande parte sob controle americano, o apelo político ao público iraniano permanece muito menos previsível.
Na manhã de domingo, a televisão estatal iraniana confirmou formalmente a morte de Khamenei, antes de anunciar rapidamente a formação de um conselho temporário de três homens para assumir a autoridade executiva.
Como se dará a sucessão de Ali Khamenei
Arte mostra sucessão do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, morto em 28 de fevereiro de 2026.
BBC
De acordo com a Constituição do Irã, a escolha de um novo líder supremo cabe à Assembleia de Peritos, um órgão clerical de 88 membros eleito por voto popular para mandatos de oito anos.
No entanto, o processo eleitoral apresenta uma limitação crucial. Todos os candidatos à Assembleia são avaliados e aprovados pelo Conselho dos Guardiães.
Esse órgão de 12 membros está profundamente interligado à estrutura de liderança, com seis membros nomeados diretamente pelo líder supremo e seis indicados pelo judiciário e aprovados pelo Parlamento, sendo o chefe do Judiciário também nomeado pelo líder supremo.
Na prática, Khamenei exerceu influência significativa sobre a instituição encarregada de escolher seu sucessor.
O regime agiu rapidamente para projetar continuidade e estabilidade.
Ao invocar mecanismos constitucionais e ativar o arranjo governamental temporário, as autoridades sinalizam que o sistema permanece intacto apesar da perda de sua figura máxima.
Inevitavelmente, as especulações se voltaram para possíveis sucessores.
No Irã, é incomum que potenciais candidatos sejam identificados publicamente com antecedência, e o processo ocorre a portas fechadas.
Dentro da Assembleia de Peritos, no entanto, entende-se que existe um pequeno comitê encarregado de revisar e selecionar os nomes, podendo apresentar uma lista restrita ao plenário assim que os procedimentos formais começarem.
As sessões são realizadas a portas fechadas e a votação não é tornada pública, limitando o escrutínio externo.
Nos últimos anos, houve especulações de que o filho mais velho de Khamenei, Mojtaba, poderia estar na disputa. Contudo, com vários dos comandantes mais confiáveis de seu pai na Guarda Revolucionária Islâmica supostamente mortos nos recentes ataques, o equilíbrio interno de poder pode ter mudado.
O precedente de junho de 1989, quando o próprio Khamenei emergiu como líder supremo, apesar de não ser amplamente visto como um dos favoritos, é um lembrete de que o resultado pode desafiar as expectativas.
O processo de seleção pode ser rápido, podendo ser concluído em questão de dias. Militarmente, porém, a República Islâmica sofreu um duro golpe.
Alvos civis, incluindo hotéis e aeroportos, foram atingidos em Dubai pelo Irã.
Muskaan Kataria via BBC
Relatórios indicam que vários comandantes de alto escalão foram mortos nos ataques iniciais. Os oficiais sobreviventes permanecem sob ameaça, enquanto as operações aéreas continuam.
A sensação de vulnerabilidade é palpável: centros de comando danificados, liderança dizimada e tomada de decisões comprimida em modo de crise.
Ainda assim, o Irã demonstrou capacidade de retaliação. Nos dois primeiros dias de ataques, as forças iranianas lançaram ataques contra bases americanas em diversos países árabes, bem como contra alvos em Israel.
Pela primeira vez, mísseis atingiram instalações não militares em Dubai e um aeroporto civil no Kuwait, ampliando drasticamente a abrangência geográfica do conflito.
A escalada sinaliza que, apesar das perdas de liderança, o Irã mantém capacidades operacionais e a vontade de usá-las.
O quanto o Irã consegue reagir aos ataques?
A perspectiva de uma escalada regional ainda maior paira sobre a crise.
Do ponto de vista dos líderes iranianos, se o conflito se ampliar e seus aliados em todo o Oriente Médio se juntarem à luta, Teerã poderá obter alguma influência para pressionar por um cessar-fogo ou, pelo menos, evitar uma rendição total nos termos ditados pelos EUA e por Israel.
De outra perspectiva, a pressão militar contínua, combinada com novos protestos em larga escala, pode levar a República Islâmica a um colapso sistêmico.
Se as forças de segurança se fragmentarem ou se houver recusa em cumprir ordens, qualquer processo formal de transição constitucional poderá rapidamente se tornar irrelevante, ultrapassado pelos acontecimentos no terreno.
Os próximos dias revelarão se a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e outros elementos do aparato coercitivo do país conseguirão manter a coesão na ausência de seu líder supremo de longa data.
Por ora, todos os cenários permanecem em aberto.
A República Islâmica parece estar em uma posição mais frágil do que antes dos ataques — privada de sua figura central de autoridade, desprovida de comandantes-chave e exposta à pressão militar contínua.
No entanto, o país mantém estruturas institucionais, Forças Armadas e capacidade de retaliação que complicam qualquer caminho direto para a mudança de regime.
A morte de Ali Khamenei mergulhou o Irã em uma fase volátil e incerta.
O que acontecerá a seguir dependerá de Teerã conseguir manter o controle interno sob os contínuos ataques aéreos, da dinâmica dos protestos e da eventual proliferação de combates pela região.
A direção dos acontecimentos provavelmente ficará mais clara nos próximos dias, à medida que todos os lados testarem seus limites militares e sua determinação política.